Computação ubíqua e multi-touch: a derradeira subjugação do homem à máquina?

Na passada sexta-feira, durante a apresentação do meu projecto de dissertação, fui confrontado com uma questão levantada pelo professor e designer Francisco Providência.

Não estarão a computação ubíqua e as tecnologias de superfície como o multi-touch a alargar ainda mais a dependência do homem para com as máquinas?

Concordo.

O recurso sistemático à tecnologia para a construção de experiências acaba por tornar o humano totalmente dependente do mundo-máquina. Vivemos numa era de verdadeira virtualização e não podemos deixar de reflectir sobre esse fenómeno.

Porque caminhamos nesse sentido? Há alguma predisposição biológica? Alguma força sobrenatural ? A preguiça? Um fascínio ancestral pelos encantos do possível? Uma vontade colectiva de alcançar o divino? Não vou estar a argumentar contra ou a favor de cada uma dessas ou de outras hipóteses, nem sobre as motivações que levam o humano a querer ultrapassar-se a si mesmo. Apenas reconheço que o humano, fascinado com a sua própria genialidade, acaba por deixar que a tecnologia tome o controlo da sua existência, do seu futuro e da própria experiência que tem do mundo.

A relação do humano com o mundo encontra-se altamente mediatizada. O modelo de interactividade vigente assenta numa operatividade de natureza simbólica; e o recurso ao rato, apesar de ter melhorado a acessibilidade quando comparado ao pré-histórico Command Line Input, continua a não fazer coincidir o tempo e o espaço do sujeito com a obra. Vivemos no reino de um modelo de interactividade debilitante, que se impôs através de extensões e metáforas acabando por tornar a interacção pouco natural. Não deixa de ser irónico, a humanidade deixar-se subjugar por máquinas incapazes de interagir directa e naturalmente com ela.

Desde sempre que o homem é subjugado pela natureza, ainda que se tenha pensado o contrário durante muito tempo (na verdade apenas subjugamos uma parte ínfima da natureza); e ainda temos as ideologias, a cultura e inevitavelmente a tecnologia. Os modelos políticos modernos, por exemplo, desenvolvem estratégias elaboradas de dissimulação e é bem provável que a tecnologia siga o mesmo caminho, tornando-se invisível e porque não mais próxima dos artefactos sobrenaturais e mitológicos criados menos por deuses que por homens.

Penso que o multi-touch, como modelo de interactividade emergente, traz claros benefícios relativamente ao tradicional desktop, com cursor e ponteiro. O multi-touch, apesar de não diminuir a dependência do homem para com as máquinas, aproxima o sujeito da obra.
Ou seja, melhora a experiência e a interacção.

Não digo que o multi-touch não participe realmente no alargamento da dependência do homem para com a máquina. Apenas acredito que seja preferível ao modelo vigente, por tornar o mundo tecnológico menos técnico, mais acessível e mais poético.

Já agora.
Quantos evoluídos cidadãos do mundo civilizado seriam capazes de sobreviver sem micro-ondas?


3 Respostas para “Computação ubíqua e multi-touch: a derradeira subjugação do homem à máquina?”

  1. Koshdukai Diz:

    O multi-touch aproxima o Homem do conteúdo, tornando o meio (a maquina) o menos intrusiva possível (pelo menos, idealmente).

    Se digo “idealmente” é porque já hoje se vê bons e maus exemplos do que se entende por “natural”.

    Bons exemplos, considero as demonstrações de Jeff Han (quanto mais recentes essas demos, melhores, mais apuradas e mais lógicas e naturais, como por exemplo a demo na nvision 2008), ao passo que maus exemplos (não todos, claro) muitas das ultimas demonstrações em Windows 7 (algumas por culpa do hardware, pouco preciso, outras pelo uso errado dos gestos e dos toques, ainda muito agarrados ao conceito de acções por pedido em menu ou botões, aproveitando pouco a naturalidade de certos gestos).

    Se nos é natural desde tenra idade lidar com o mundo físico via manipulação directa, um interface o mais próximo possível disso será o que nos permite mais facilmente lidar com o virtual da forma mais compatível e menos intrusiva (do ponto de vista do raciocínio e hábitos biomecânicos) com que lidamos com o físico real.

    O problema do multi-touch será apenas nas situações em que haverá necessidade de feedback táctil (precisamente para manter a naturalidade das acções) e o hardware não o permitir. Daí, o acto de escrever (que hoje em dia, para muitos, o “natural” é escrever num teclado, por força de décadas de educação, subjugação à maquina ou habituação) poderá levar muitos a desviar a atenção da superfície de multi-touch para a versão hardware dum teclado, precisamente pelo conforto táctil que este dará em contrapartida da versão virtual.

    Sei que já existem técnicas de feedback táctil usadas em pequenos ecrans, mas não sei até que ponto serão compatíveis com superfícies maiores, que aí sim, seriam bastante úteis para algo como uma estação “tradicional” de trabalho composta não por apenas um ecran vertical multi-touch, mas em conjunto com um horizontal, fazendo as vezes do input horizontal mais frequente, junto com o ocasional input na vertical, satisfazendo o reflexo natural de apontar para “coisas” no ecran :)

  2. filipa cruz Diz:

    boas perguntas :D e bas respostas

  3. Hugo Silva Diz:

    A subjugação do homem há natureza parece-me natural, desde sempre o homem compete com a natureza, no sentido de se auto-explicar. A Ciência e a tecnologia são mais um meio para essa conquista, que quanto a mim diferem da crença ou da religião. A vantagem da Ciência e da Tecnologia e porque trás algo mais palpável, que não significa que seja mais verdadeiro, como refere Boaventura Sousa Santos.

    A dependência que temos pela tecnologia, não é diferente da dependência que temos dos nosso mitos. Hoje já não vivemos sem eles, assim como já não vivemos sem a tecnologia. Mesmo que tentássemos ser independentes de ambos, isso seria socialmente impossível. Nascemos por auxilio da tecnologia e logo a seguir temos um pároco a dar-nos uma benção qualquer. E que podemos nós fazer? nada…

    Por isso, quanto a mim a questão não é se este tipo de tecnologia vai aumentar mais a nossa dependência em relação à tecnologia, ela é absolutamente inevitável pela nossa evolução enquanto seres humanos pensantes.

    A pergunta quanto a mim é a mesma de sempre, desde que o homem pegou na primeira pedra e fez lume:

    Será que este tipo de medição entre o homem e a tecnologia vai realmente melhorar as nossas vidas?
    Ou não teremos nós criado demasiada dependência com objectos, que vamos recusar a aceitar a redução de tudo a uma simples película digital.

    Eu não sei o que todas as pessoas deste planeta pensão, mas eu continuam a preferir a caneta e o papel (ou algo semelhante) em relação a todos os possíveis sistemas tecnológicos inventados e continuo a preferir ir às compras para ver e sentir os produtos.


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